Dom, 06 de Novembro de 2011 13:41
NOVA YORK - Durante décadas, cientistas têm estudado áreas profundas do cérebro associadas ao prazer e ao vício. É só colocar um eletrodo em uma parte do cérebro de um camundongo que ele automaticamente vai ficar viciado em estimular aquela área.
Quando os camundongos recebem uma corrente elétrica nos "circuitos de recompensa" do cérebro em troca de pressionarem uma alavanca, eles vão pressioná-la até 7.000 vezes por hora. Os bichanos se esquecem, inclusive, de comer e beber.
Ratos do sexo masculino ignoram suas fêmeas que estão no cio para conseguir uma dose da corrente no cérebro, e aqueles que acabaram de ter filhotes os ignoram em busca desse prazer.
"A alavanca se torna o sentido da vida", afirma Davind J. Linden, neurocientista da escola de medicina da Universidade John Hopkins, em seu novo livro, "O Compasso do Prazer".
Na obra, Linden explica como funcionam as drogas que acendem esses "centros de prazer" do cérebro quando consumidas (além de diversas áreas interconectadas). Segundo o cientista, elas, na realidade, reprogramam o órgão para que ele aumente, a cada consumo, a necessidade desses compostos. Ele afirma, ainda, que é fácil identificar qual camundongo consumiu cocaína e qual não a partir de tomografias.
O ponto mais interessante de sua pesquisa, contudo, não é a identificação dos efeitos dos entorpecentes. O que Lindem propõe é que o efeito das "recompensas" no cérebro não existe somente a partir das drogas.
Tomografias sugerem que qualquer coisa, desde o açúcar até o sexo, acende o circuito do prazer no cérebro. E todos os elementos têm consequências neurológicas correspondentes ao vício. Como exemplo, vale citar o exercício físico. Como um corredor assíduo desde o colegial, comecei a me perguntar: seria eu, também, viciado em correr? Segundo Linden, os viciados em exercícios apresentam todos os traços dos dependentes químicos: "tolerância primária, vontade subsequente e, por fim, a necessidade de se exercitar para 'se sentir normal'".
O exercício estimula a liberação de compostos químicos chamados endorfinas e encefalinas (versão cerebral do ópio) e os endocanabinoides (versão cerebral da maconha). No laboratório, os ratos desenvolvem vícios até mesmo com exercícios na roda giratória.
Pesquisadores que embarcam cada vez mais nos mistérios do cérebro têm identificado padrões semelhantes nos humanos. Quem poderia imaginar que os orgasmos, tanto em homens quanto em mulheres, funcionam nos circuitos de prazer do cérebro da mesma forma que a cocaína? Segundo Linden, existe um vício biológico genuíno: o sexo. E a falha da população em reconhecer esse vício significa, afirma o cientista, que essas pessoas não estão recebendo o tratamento adequado.
NYT/Liberdade FM